quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Relatos pessoais


Texto 01

O herói do povo

Numa cidade do interior da Bahia, um político muito querido e famoso se torna vereador. Filho de outro político muito conhecido e influente - por comprar novas ambulâncias para o município – ele recebeu a alcunha de Tevo da Ambulança. Provavelmente seu nome era Estevão. Mas essa informação é de origem imprecisa, já que no interior a alcunha é mais forte e mais presencial que o nome de batismo. Tevo era desses políticos populares. Não terminou o ensino fundamental do segundo ciclo – dizem por aí, as más línguas, que nem havia terminado a alfabetização. Era de um discurso comedido e até pobre, mas de efeito e eficácia: as ambulâncias novas da prefeitura compradas por seu pai, político de renome. Na verdade quase nunca falava; melhor, nunca falou nada. Quem falava das ambulâncias era seu pai e o povo em geral, alem dos que o apoiavam; era citado, recomendado e sugerido por outros políticos no palanque. Sua imagem era constante nos comícios, mas ficava sempre à sombra dos grandes; calado. Com isso ganhou prestígio, mesmo não tendo dito uma única palavra sobre seus planos, seus projetos ou sobre suas intenções ao cargo público pretendido. Ele e o microfone pareciam não ser íntimos. Dizem os opositores, que Tevo tinha medo de microfones. Verdadeiro pavor. Mas, enfim, fato é que um dia Tevo falou. Já era, nessa situação, vereador. Na câmara, ocorria um debate acirrado sobre assuntos de interesse popular. Era xingamento daqui, ameaça dali, gritaria de lá, insultos de cá. E Tevo na sua calma habitual e no seu silencio quase místico. De repente um desses tipos zombeteiros, do meio da multidão gritou:

- Fala alguma coisa, Tevo.

Todo mundo parou. As atenções se concentraram na pessoa do vereador. Tevo se encaminhou até o microfone, olhou de um lado para o outro, viu aquela imensa aglomeração de pessoas. Olhou com certo receio para o microfone. Depois procurou com os olhos, pela multidão, o patife que o provocara. Ao identificá-lo, franziu o cenho, levantou o braço na direção do cidadão zombador, apontou - lhe e disse eloqüentemente:

- Lhe pego lá fora.

E falou Tevo. O meu, o seu, o nosso herói.

Augusto F. Guerra




Texto 02

A adiposíssima senhora

elefântica gorda

Havia acabado de chegar à festa de casamento do meu ilustríssimo amigo Petrônio Nevadas. Dirigi-me juntamente com uns amigos a uma mesa localizada no final do salão. O local onde se realizara a festa era grande e espaçoso, mas como eram muitos os convidados, o aperto foi inevitável. Sentamo-nos à mesa, acomodamo-nos e começamos a beliscar alguns aperitivos. Ia tudo muito bem até uma elefântica senhora gorda começar a estragar minha noite. Ela não era obesa, mas era gorda o suficiente para incomodar qualquer pessoa no raio de alguns metros. Nada contra o seu excesso de tecido adiposo. O problema é que ela resolveu sentar-se ao meu lado. Sem que houvesse o mínimo de espaço entre a mesa que estávamos, que se localizava na quina entre duas paredes, a adiposíssima senhora tomou uma cadeira e sentou-se numa proximidade tão grande que o ar tinha que pedir licença para passar entre nós. Pior, ela me pressionou literalmente, entre a mesa e a parede, não me dando espaço para me mexer ou mesmo sair. Como havia outra mesa próxima à nossa, também paralela, e próxima à parede, nenhum dos meus amigos podia sair. Respirei fundo, apesar do pouco espaço, e pensei “Isso não vai acabar com minha noite”. À proporção que a banda tocava e o tempo passava a ilustríssima senhora se animava. Muita comida e bebida de graça... Acho que era o paraíso para ela. E ela se animava cada vez mais. Passava o garçom, ela não perdia um copo. Mas tenho que admitir que gentilmente ela sempre nos oferecia bebida também. Mas isso não compensa a falta de desconfiômetro dela. Ao passo que ela se empolgava e conversava com umas amigas próximas, ela gesticulava e gesticulava, e o espaço entre nós que era negativo, se tornava cada vez menor. E passava o garçom, e ela me perguntava “Não quer um salgado ou um doce, meu lindinho”. E eu pensava “Não, só quero que a senhora exploda de tanto comer e beber”. E ela comia feito um animal esfaimado. A boca cheia de farelos permanecia aberta durante a mastigação... Era uma cena deprimente. E ela ria e gargalhava, e seus movimentos se tornavam mais efusivos. Eu já não sabia onde ela terminava e onde eu começava, éramos praticamente a mesma pessoa. E ela levava a risca a teoria de que dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço. A cadeira dela junto com a minha já era quase uma poltrona para ela. E eu praticamente já não existia não fosse a minha consciência. Ela continuava gargalhando e se refestelando com os doces, salgado e bebidas. Foi então que comecei a orar, pedi a Deus que fizesse surgir uma mesa vazia em algum lugar para que ela e suas amigas pudessem “habitá-la”. Mas acho que o som da festa estava alto e Deus não me ouviu. Aquela situação já estava me deixando sem humor, na verdade já estava ficando enfurecido com toda aquela espremeção. Foi então que tomei uma decisão, tentei respirar fundo, mas não havia espaço o suficiente, consegui pelo menos franzir a testa numa demonstração de indignação. Tentei levantar a mão para apontar-lhe na cara e dizer-lhe umas verdades, mas meu braço direito encontrava-se numa posição um tanto inoperante, esmagado entre a sehoríssima gorda e o recosto de minha cadeira. Então reuni todas as minhas forças, meus olhos já faiscavam de raiva, e, quando já articulava as palavras para lhe dizer umas boas, ela levantou. Olhou para mim com olhar generoso e muito gentil e disse “Meu queridinho, vou à outra mesa. Desculpe deixá-lo sozinho.” E a hipopotâmica senhora se deslocou indolentemente para seu novo habitat. E eu... Eu tentava me recompor e re-encaixar todos os meus ossinhos deslocados pelo imenso e gentil peso daquela adiposíssima senhora elefântica gorda. Agora que me dei conta... Ela parecia muito com o jabuti manco da outra história!


Augusto F. Guerra

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