quinta-feira, 9 de julho de 2009

Transpor é solução?

Sem a água do Velho Chico, a esperança é a última que seca

LEONARDO SAKAMOTO

Artigo publicado na Revista Problemas Brasileiros, ed. 27, Setembro/Outubro de 2001.

O primeiro projeto foi concluído quando as barbas de dom Pedro II ainda dominavam a cena política do Brasil Império. Em 1852, os engenheiros do imperador já se preocupavam com o semi-árido nordestino, que queriam ver irrigado com a água do São Francisco. De lá para cá, a idéia surgiu nos planos governamentais e deles desapareceu inúmeras vezes, enquanto a região, ano após ano, sofria as conseqüências da seca.

Entre as decisões que mais animaram os habitantes daquela área, o destaque sem dúvida ficou com a proposta do governo Fernando Henrique Cardoso, uma promessa de campanha que o ajudou a amealhar os votos daquela população em duas oportunidades: em 1994, quando se elegeu pela primeira vez, e quatro anos depois, ao ser reeleito.

Grande foi a surpresa, portanto, de muita gente em julho último, quando o governo federal anunciou a suspensão das obras dos canais que iniciariam a transposição das águas. Orçado em mais de R$ 3 bilhões, o projeto aguardava apenas a aprovação do Relatório de Impacto Ambiental (Rima) pelo Instituto Brasileiro do Meio-Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) – sob intensa chuva de protestos de pesquisadores, ambientalistas, comunidades indígenas, populações ribeirinhas, setores da Igreja Católica e políticos contrários à transposição da forma que está proposta.

Trata-se, sem dúvida, de uma idéia polêmica, que promete ainda muitas idas e vindas antes que as primeiras gotas do São Francisco atinjam os açudes do nordeste. O projeto consiste na construção de dois canais artificiais distintos – eixos Norte e Leste –, destinados a ligar o rio ao semi-árido dos estados de Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte. A água captada em Cabrobó (PE), acima da ilha Assunção, e no reservatório de Itaparica, representando cerca de 3% do volume do rio, seria então bombeada por 591 quilômetros de canais, dois aquedutos (20 quilômetros) e 12 túneis (22 quilômetros), e jogada nos rios da região até atingir uma rede de 26 açudes.

Assim que o governo anunciou a suspensão, Rômulo Macedo, ex-secretário de Infra-Estrutura Hídrica, responsável pelo projeto de transposição até meados deste ano, criticou a alteração. Afinal de contas, informou, R$ 40 milhões já foram gastos apenas em estudos básicos e pesquisas. "Vai haver um apagão da água no nordeste e então ficará muito clara a sua necessidade", disse.

Na outra ponta, o ministro da Integração Nacional, Ramez Tebet, justifica a decisão: "Estamos levando em conta o fato de que não podemos iniciar as obras. Há impedimentos que não dependem do governo", afirmou. O ministro, que por sinal é do Mato Grosso do Sul, região do generoso Pantanal, onde a água é abundante, apontou como um desses impedimentos uma liminar na Justiça que bloqueou o processo de audiências públicas para a avaliação do Rima. Afirma, entretanto, que o projeto não secou de vez e que os estudos continuam. O governo, aliás, está transferindo R$ 100 milhões – dos R$ 200 milhões previstos para a transposição no Orçamento 2001 – para a revitalização do São Francisco.

A operação, batizada de "Velho Chico, Novo Rio", informa o governo, deve começar ainda este ano com ações de reflorestamento, renovação da mata ciliar e organização da agricultura familiar, e é considerada pelo ministério como parte do projeto maior. O restante do orçamento será investido na conclusão de grandes açudes que futuramente receberão a água da transposição.

Segundo o ministro pantaneiro, o baixo nível do São Francisco foi o responsável pela alteração de rumos, determinando uma "mudança no perfil dos investimentos". Em Brasília, porém, comenta-se que essa guinada foi resultado mais de uma decisão política do que técnica. Afinal, com a inevitável demora na conclusão das obras, o presidente Fernando Henrique não teria tempo de receber os dividendos políticos antes do final do mandato. E não gostaria de deixar um presente desse porte para seu sucessor, principalmente se fosse um oposicionista. Conclusão: dificilmente os canais sairão do papel até dezembro de 2002, postergando para o próximo governo a decisão de tocar a parte mais importante e polêmica da obra, que é a retirada da água de seu leito natural e seu desvio para os canais.

O antecessor de Tebet no ministério, o potiguar Fernando Bezerra, grande defensor da transposição, não se conforma com a postergação. "O argumento de suspender o projeto devido à falta de água é ridículo, pois sua realização demoraria, pelo menos, quatro anos. Por isso, deveria ser iniciado já", afirmou.

Enquanto autoridades e interessados no assunto não se entendem, a seca vem se tornando cada vez mais grave. "O total desabastecimento de vários municípios nordestinos e a atual crise energética, com os reservatórios do sistema Chesf (Companhia Hidrelétrica do São Francisco) praticamente vazios, são a prova disso", diz João Suassuna, pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco e um dos maiores especialistas do país em recursos hídricos. "E a tendência é haver o agravamento da situação. Comenta-se que o auge do ciclo será atingido por volta de 2005."

Para analisar os prós e os contras da transposição do São Francisco, a reportagem de Problemas Brasileiros percorreu municípios que seriam atingidos pelos canais do Eixo Norte – o mais longo –, visitando comunidades que, teoricamente, se beneficiariam diretamente do projeto. Além disso, descemos o rio de Cabrobó à foz, para tentar entender que mudanças seriam trazidas pela transposição e pela conseqüente redução no volume de água. E, principalmente, quais as perspectivas para o Velho Chico, o rio da integração nacional.

Em um quadro de forte estiagem, em que os colapsos no fornecimento de água e na produção de energia elétrica parecem inevitáveis, a idéia de levar parte do São Francisco para o semi-árido parece loucura. Muitos falam que seria o equivalente a fazer com que um moribundo doasse sangue. Prevêem que, caso isso aconteça, será a morte do rio. Por outro lado, milhares de famílias estão enfrentando uma situação insustentável. Se não forem adotadas medidas urgentes, é provável que ocorra uma catástrofe nos próximos anos. E, se as iniciativas forem paliativas, vão durar apenas até a próxima seca.

Transposição: as informações técnicas não estão chegando às mãos das autoridades que decidem os destinos do Rio São Francisco.


Por João Suassuna

Ao término do ano de 1999, a situação hídrica do Brasil apresentava-se calamitosa. Na região Nordeste, após seguidos anos de seca (97, 98 e 99 foram secos), o que se viu foi um quadro desolador e, por vezes dramático, no desabastecimento de várias cidades da região, a exemplo de Campina Grande, a segunda maior cidade do estado da Paraíba, prevendo-se o colapso total, já no mês de janeiro de 2000. No estado de Pernambuco, a situação não era diferente. Cidades como Caruaru e Surubim, apresentavam racionamento de 26 dias e Recife, a capital do estado, chegou a racionar água por um período de 9 dias em alguns bairros.


Naquela ocasião, a falta d’água parecia ser um problema não apenas dos nordestinos. A situação tinha extensão nacional. O setor elétrico do país ficou ameaçado por falta de chuvas. As três hidrelétricas do sistema CHESF estavam com seus reservatórios com níveis baixíssimos: Três Marias com 17,94% da capacidade útil; Sobradinho, considerado o maior reservatório de água do Nordeste, com menos de 10% de sua capacidade ocupada e Itaparica com 43%. No norte do país a situação não era melhor: no Rio Tocantins, o reservatório da hidrelétrica Serra da Mesa, estava com 34% de sua capacidade e o de Tucuruí com 55%. Na região Sudeste, no Rio Grande, a hidrelétrica de Furnas apresentava 12,86% de seu reservatório ocupado; o de Marimbondo, com 11,73% e o de Água Vermelha, com 23,70%. No rio Tietê, a hidrelétrica de Três Irmãos com 12,80% de sua capacidade; a barragem de Barra Bonita, com 31,83% da capacidade e a de Promissão com 17%. No rio Paranaíba, a hidrelétrica de Emborcação, com 25% da capacidade do reservatório; a de Nova Ponte, 32,86% e a de São Simão, com 41,85%. No rio Paraná, a hidrelétrica de Ilha Solteira estava com 12,70% do seu reservatório ocupado.


Este quadro preocupante fez o país acordar para o assunto e as questões hídricas, antes relegadas a um segundo plano, passaram a fazer parte da mídia em todo o país. No entanto, estamos longe de chegar a um denominador comum com relação à solução dessa questão, tendo em vista, de um lado, existirem os que defendem a transposição do Rio São Francisco como a única alternativa viável para a solução dos problemas de abastecimento das populações nordestinas (visão muito comum no meio político), não havendo a preocupação, para se alcançar aquele objetivo, de avaliar as conseqüências oriundas da retirada, no rio, dos percentuais volumétricos pretendidos; de outro lado, existem aqueles que radicalizam, fazendo previsões, as mais sombrias possíveis, com relação ao futuro do rio, dando como certa a sua exaustão até o ano 2060. Pelo visto, essa polêmica, de certo, ainda vai perdurar por mais um bom período de tempo.


Entretanto, temos que avaliar a questão da transposição levando em conta alguns fatos importantes, acontecidos e vivenciados na atualidade, os quais vão ao encontro daqueles que fazem as previsões mais pessimistas com relação àquele caudal, ou seja, de que ele terminará se exaurindo. Referimo-nos ao desaparecimento de três rios de pequeno porte no sudoeste da Bahia, no município de Correntina (o Cabeceira Grande, o Capão e o Sucuriú), todos afluentes de importantes tributários do São Francisco, como é o caso do rio Corrente. Esse fato aconteceu no terço superior do rio, região que deveria merecer um tratamento adequado pelas autoridades, pois tudo o que ocorre ao longo do São Francisco é reflexo dos acontecimentos naquele importante setor de sua bacia hidrográfica. É naquela região onde são formadas as grandes cheias do rio, é nela onde a navegação e a pesca se fazem com maior intensidade e é onde ocorrem as precipitações responsáveis pelo abastecimento da represa de Sobradinho que, por sua vez, possibilita a regularização do rio e a garantia de geração de energia elétrica no complexo de Paulo Afonso. Seria, em tese, a região na qual se deveria ter um maior cuidado quanto à preservação do ambiente, a fim de se garantir a proteção necessária do rio. Mas, infelizmente, não é isso que vem ocorrendo nos últimos anos. Os desmatamentos indiscriminados praticados pelos proprietários ao longo de suas margens vêm trazendo conseqüências desastrosas para a manutenção dos aqüíferos, assoreando-os e dando início ao processo de exaustão de algumas nascentes. Esse fato, aliado às características geológicas da região na qual o rio corre (embasamento cristalino), às secas sucessivas, muito comuns na região, e ao comprometimento das águas com a geração de energia e com a irrigação (a geração de energia consome 2100 m³/seg da vazão média do rio que é de 2800 m³/seg, enquanto a irrigação de todo o potencial irrigável de sua bacia demanda cerca de 1500 m³/seg), evidencia um problema que muitas vezes passa despercebido e que tem importância fundamental para o planejamento do uso das águas do São Francisco para fins de abastecimento. Trata-se da diminuição da vazão do rio e, consequentemente, da necessidade de se trazer energia de outros centros geradores do país para abastecer a região Nordeste.


Esse fato mostra a necessidade de haver a revitalização do rio através de novos aportes volumétricos oriundos de outras bacias hidrográficas. Essa questão tem ocorrido com certa freqüência, tendo ficado evidente no ano de 1999, com a represa de Sobradinho operando em regime crítico, com menos de 10% de sua capacidade útil, obrigando a CHESF a importar 800 MWH de energia da hidrelétrica de Tucuruí (PA) para o Nordeste, volume de energia equivalente a 15% do consumo da região. Essas previsões foram feitas pelo Diretor de Operações da CHESF, Dr. Paulo de Tarso, em matéria publicada no Diário de Pernambuco em 18 de março de 1999.


Mesmo com esses acontecimentos, a questão da transposição passou a ser tornada pública pelas autoridades do país, sem nenhuma restrição quanto à sua implementação, bastando mera vontade política para pô-la em prática, e nada mais. Nesse sentido, temos acompanhado pela mídia os depoimentos, as entrevistas e as tomadas de decisões de alguns membros do governo federal ligados ao assunto, avaliando a questão com muita tristeza e apreensão por acharmos, de um lado, que as informações técnicas estão chegando às mão das autoridades competentes de forma incompleta e, de outro, por entendermos que, mesmo existindo essa deficiência no trato das informações, o projeto acabará sendo realizado a todo custo, tendo em vista o poder decisório e a vontade política das autoridades em fazê-lo diante de uma situação desesperadora. Para se ter idéia da magnitude do problema, a licitação do projeto está prevista para ser iniciada no primeiro semestre do ano 2000 e, para tanto, já foram negociados, junto ao Banco Mundial, cerca de US$ 189 milhões para serem gastos em algumas linhas de ação, tais como: gestão, estudos e projetos, bases técnicas (redes de monitoramento) e obras.


Essas questões, no entanto, deveriam ser tratadas em bases mais científicas e menos empíricas e apaixonantes. Não se pode transpor as águas de um rio, a qualquer custo, sem haver a preocupação com os efeitos causados ao ambiente, advindos dessa transposição. Procedendo-se dessa forma, gera-se um ciclo vicioso, como se o carro estivesse literalmente na frente dos bois, ou seja, soluciona-se um problema (de abastecimento) com a criação de outro de igual magnitude (de geração). Com a existência do novo problema, parte-se para solucioná-lo e termina-se por criar outro de difícil solução, fechando-se assim o ciclo pernicioso. Essa é a realidade dos fatos. Os questionamentos técnicos são sempre relegados a um plano secundário. O resultado dessa prática equivocada, certamente tem trazido, como conseqüência, o que estamos presenciando na atualidade: a falência quase que completa dos sistemas de abastecimento das grandes cidades nordestinas, pondo em risco a vida de suas populações.


No nosso modo de entender, a transposição deveria ser realizada através de ações mais coerentes, que poderiam ser postas em prática pelas autoridades do Nordeste, traduzindo-se na realização de um orçamento hídrico, no qual se garantiria volumes de água para o atendimento a diversos fins. Assim, seriam reservados X m³/s para o abastecimento das populações, Y m³/s para irrigação, Z m³/s para geração de energia, W m³/s para uso industrial e assim por diante. Esse orçamento seria constantemente atualizado (a Agência Nacional da Água-ANA teria um papel fundamental no gerenciamento desse orçamento), de acordo com as características hidrológicas de cada ano, podendo apresentar folgas na utilização daqueles volumes, em casos de anos com maiores índices pluviométricos, e restrições na utilização, para os casos de anos com escassez de chuvas. Igualmente importante seria a transposição de águas oriundas de outras bacias hidrográficas para ampliar a vazão média do São Francisco. Nesse caso, existe uma falha tectônica no noroeste da Bahia com a existência de duas lagoas (Jalapão e Varedão), ambas com triplo desaguadouro: para o Parnaíba, para o Tocantins e para o São Francisco, através do rio Sapão que deságua no rio Preto, que por sua vez, deságua no rio Grande e finalmente no São Francisco. Nas referidas lagoas já há uma transposição natural para o São Francisco de cerca de 110 m³/seg. Um aprofundamento dessas lagoas seria o suficiente para uma ampliação significativa da vazão do rio São Francisco.


Entretanto, não se deveria deixar de lado as ações já existentes para fazer chegar água às populações. Constitui um erro crasso imaginar-se que, atualmente, a transposição do São Francisco é a única alternativa possível de abastecimento do Nordeste. Temos que acreditar e dar continuidade aos investimentos já realizados no setor de abastecimento, através da construção de grandes represas (a represa de Pirapama, na região metropolitana do Recife, que poderia minimizar e muito o problema do racionamento de água do município, teima em não sair do papel); da exploração racional dos aqüíferos subterrâneos, principalmente em regiões sedimentares; da ampliação do número de cisternas no meio rural; do desenvolvimento das pesquisas na área de reuso de águas servidas, etc. A transposição tem que ser encarada como mais uma alternativa de abastecimento, que viria a ser somada às já existentes.


Finalmente, existe um adágio popular que afirma ser Deus brasileiro. Com as recentes chuvas caídas em janeiro do ano 2000, que postergaram por mais alguns meses as previsões de colapso do abastecimento da região, acabaram por regionalizar mais o referido adágio. Deus, além de brasileiro, passou a ser nordestino. Sobre essa questão, chegamos à conclusão que não adianta Deus ser brasileiro ou nordestino. Se não fizermos a coisa certa, pagaremos o preço do mau comportamento. Temos a memória curta e, por isso, não usamos adequadamente as lições do passado. Temos a visão do futuro também curta. Com relação às questões hídricas, por exemplo, nos perdemos no ano de 1999 em muitas conjecturas; é certo que previmos muitas coisas ao longo do seu curso, mas o fato é que não temos, hoje, uma boa visão de como as coisas irão se comportar no ano 2000. Talvez a melhor saída fosse a de se tentar colocar a junta de bois no seu devido lugar e caminhar, devagar, mas com os pés no chão.



http://www.fundaj.gov.br/docs/tropico/desat/js250200.html

No Nordeste brasileiro, os rios que correm sobre o embasamento cristalino têm caráter temporário.

Por João Suassuna, Pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco

Estamos às voltas com um novo ciclo seco no Nordeste. O El Niño está colocando suas "garras" de fora. As águas do Oceano Pacífico estão esquentando devido à ação dos ventos alísios que sopram de leste para oeste elevando o nível das águas quentes que normalmente se encontram na parte ocidental daquele oceano. Os ventos começam a mudar de direção (agora no sentido oeste para leste), levando a massa de água quente para a costa peruana, o que ocasiona fortes tempestades com a intensa evaporação ali existente. No litoral sul-americano, o mecanismo impede a subida das águas frias à superfície, enquanto os ventos desviam as chuvas e bloqueiam as frentes frias vindas da Antártica, causando inundações no Sul e seca no Nordeste brasileiros.

Esse fenômeno está mais uma vez presente no país (agosto/97), com várias cidades do Sul em estado de calamidade pública, devido à ação das fortes chuvas que provocam enchentes descabidas, esperando-se, em contra-partida, o pior para o Nordeste. A seca parece inevitável.
Diante desse fato, recrudesce, no meio político, a idéia da transposição das águas do Rio São Francisco, como a única solução para resolver o problema do abastecimento das cidades e mitigar a sede dos nordestinos. O quadro merece uma pausa para meditação.

Temos conosco um documento elaborado pela Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente do Estado de Pernambuco intitulado "Relatório sobre a Transposição do Rio São Francisco e as Atuais Necessidades de Recursos Hídricos do Nordeste", no qual fica clara a visão do governo com relação às vantagens de transpor as águas, tendo em vista o reforço dos recursos hídricos para os rios Brígida e Pajeú e os benefícios sócio-econômicos advindos.

No documento é feita uma descrição, em linhas gerais, das características do projeto de transposição transcritas, a seguir, na íntegra:

a) "a captação de água deve ser realizada perto de Cabrobó, na divisa entre Bahia e Pernambuco, numa altitude 50 m inferior à da Barragem de Sobradinho;

b) pretende-se desviar cerca de 280 m³/s, quando o projeto estiver todo implantado, sendo que na primeira etapa, a previsão é retirar 70 m³/s do São Francisco, que neste ponto tem vazão firme (grifo nosso) de 2065 m³/s, o que representa menos, provavelmente, que a margem de erro das medições hidrológicas;

c) na captação a água será bombeada para superar cerca de 30 m de elevação geométrica e segue em canais e reservatórios até Terra Nova, onde é elevada novamente em 50 m, prosseguindo em aquedutos e leitos naturais (grifo nosso) até Salgueiro, onde uma 3ª estação elevatória seria implantada para recalcar a água a 80 m de elevação. Desta forma, a água captada na cota de 315 metros, após ser recalcada 160 m, cruzaria o divisor na altitude de 475 metros, prosseguindo daí em diante para o vale do Jaguaribe, por gravidade. A passagem no divisor é prevista em túnel de 1500 m, nos limites estaduais de Pernambuco e do Ceará;

d) a idéia é que, dos 2000 km percorridos pela água na adução até o mar, cerca de 200 km serão contemplados com obras. As demais distâncias serão percorridas em leito natural de rios e reservatórios;

e) depois de transposto o divisor, a água seguiria pelos rios dos Porcos, Salgado e Jaguaribe, por onde atingiria o litoral;

f) na primeira etapa do projeto, as vazões decorrentes da transposição seriam divididas da seguinte forma: 25 m³/s para o Ceará, 15 m³/s para o Rio Grande do Norte, 15 m³/s para a Paraíba e 15 m³/s para Pernambuco."

O curioso é que, da forma como a questão é colocada, num contexto um tanto inconseqüente, pois nos dá a nítida impressão da magnitude dos custos do projeto, tanto os financeiros como os imputados ao meio ambiente, parece-nos que as pessoas perderam o censo crítico de analisar as coisas. É como se houvesse a proposta para a realização de um projeto de esfriamento das águas do Pacífico para minimizar os efeitos do El Niño, "laçando-se" um iceberg da Antártica e rebocando-o até o local do esquentamento, para amenizar a temperatura daquele pedaço do Oceano Pacífico que tem tanta importância para a vida dos nordestinos. No nosso modo de entender a comparação tem a mesma magnitude.

A questão tem que ser tratada em bases mais científicas ao invés de decisões simplórias e descabidas, do tipo "vamos fazer, que depois os problemas surgidos serão resolvidos". Só que, dessa forma, os problemas podem não ter o remédio esperado e, mesmo que surjam algumas alternativas de solução, essas poderão ser inviáveis dado o custo elevado.

No nosso modo de entender, alguns pontos têm que ser levados em consideração quando o assunto é transposição das águas: o primeiro, diz respeito à intensa evapotranspiração que existe no Nordeste semi-árido, que chega a alcançar patamares médios da ordem de 2000 mm anuais. Isso é um dado espantoso, se imaginarmos uma lâmina de 2 metros de água a céu aberto, em leitos naturais conforme o explicitado no projeto, perdendo-se anualmente para a atmosfera sem o mínimo uso, numa região de déficit hídrico, onde a média pluviométrica gira em torno dos 600 mm anuais. O segundo, diz respeito ao consumo de energia para recalcar o volume de água pretendido. De acordo com os dados do projeto, a energia necessária para esse fim é equivalente àquela gerada em Sobradinho (1050 MW), ou seja, precisa-se ter uma Sobradinho inteira, funcionando 24 hs por dia, para manter o sistema operando satisfatoriamente, numa região em que estão previstos problemas de geração de energia elétrica já no ano 2000. O terceiro, e talvez o mais importante, diz respeito à garantia de vazão do rio que assegure a geração de energia elétrica e a irrigação em suas áreas potenciais. O São Francisco é um rio que, no Nordeste semi-árido, corre inteiramente sobre o embasamento cristalino e, em decorrência disso, todos os seus afluentes têm regime temporário. Este aspecto traz, como conseqüência, uma diminuição gradativa de sua vazão ao longo do ano, dada a diminuição e até a interrupção das vazões dos afluentes que fazem parte de sua bacia, agravada ainda, pelo uso consuntivo das águas na irrigação (águas utilizadas que não têm retorno ao rio).

Justamente na tentativa de solucionar o problema de vazão do rio, a Companhia Hidrelétrica do São Francisco - CHESF construiu a represa de Sobradinho que manteve, de certa forma, a vazão do rio em patamares adequados para a geração de energia no complexo de Paulo Afonso. Mesmo assim, dadas as secas periódicas que assolam a região, a referida represa tem operado, com certa freqüência, em níveis críticos, chegando a voltarem à tona as ruínas da cidade de Remanso no Estado da Bahia, que ficou submersa com a construção dessa represa e que foi reconstruída em uma cota mais alta, longe das águas. Ora, se a antiga Remanso volta a aparecer no período de seca, isso nos leva a crer que o leito do rio praticamente volta a ser o que era antes de ser represado e que as águas, antes acumuladas para resolver os problemas de geração de eletricidade e de irrigação, não atendem mais àquelas finalidades.

Com relação a esse ponto, no final do ano passado (1996) assistimos, na mídia televisiva, a uma entrevista do Presidente da CHESF em que este se mostrava preocupado com a diminuição da vazão do rio, chegando a comentar que a bacia do São Francisco estava no seu segundo ano de seca e que não poderia entrar no terceiro, sob pena de haver racionamento de energia elétrica. Nesse período, segundo informações colhidas por engenheiros da CHESF, a represa de Sobradinho estava com um volume acumulado de água de apenas 13% de sua capacidade. Imaginem os senhores leitores se, uma vez instalado esse quadro de penúria hídrica, tivéssemos ainda que subtrair mais água do rio para atender ao abastecimento do Nordeste. Simplesmente não iríamos ter água suficiente para tudo isso (geração, irrigação e abastecimento). Ficamos até a imaginar as manchetes dos principais jornais nordestinos: "CHESF entra na justiça para assegurar geração de energia no Nordeste", ou mesmo, "O Rio São Francisco agoniza".
Diante do exposto, esperamos que as autoridades reflitam melhor sobre a transposição do Rio São Francisco, agregando a ela a questão do gerenciamento regional integrado dos recursos ambientais, aí incluindo o uso coerente de suas águas, como fator fundamental do desenvolvimento da Região Nordeste. Para que isso se realize, é importante que sejam ouvidos todos os segmentos da sociedade, que precisam ser estimulados para apoiar essas ações, e conhecer quais são suas prioridades e como estas se inserem num plano de conjunto que se desdobra ao longo do tempo.

http://www.fundaj.gov.br/docs/tropico/desat/joao.html

quarta-feira, 8 de julho de 2009

UMA QUESTÃO DE LINGUAGEM

Juremir Machado da Silva
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-C ñ podia me descolá um trampo no CP, Ju?
- Não apito nada – respondi, usando uma linguagem que me pareceu estranhamente anacrônica, embora dois minutos antes ainda estivesse fresquinha na minha cabeça e ultrapassado fosse apenas um colega meu que fala “que pequena” toda vez que vê uma gatinha maneira”.
- Sei, Ju, mas vc trampa no CP, ñ trampa?
- Bem, acho que sim. Quer dizer, trampo (fiquei imaginando o mais-que-perfeito do verbo trampar).
- Então pq ñ faz + fprça pra me aju. Qro saí de ksa.
- Não entendi bem. Não podes escrever em português?
- Pô, Ju, já te flei pra naum c tiozinho.
- Tenho as minhas limitações.
- :-)
-Hummm...
- Tô 100%
- Por que não arranja um emprego?
- :-(
-Qual é?
- É isso. Qro um trampo.
- Não é comigo.
- Pq vc naum xegou na hr q eu t flei?
- Pirou?
- C eh um kra irado, Ju, naum vacila.
- Não, não estou irritado nem irado, moça. Só não sei do que tu estás falando. Para mim tudo isso é grego.
- Naum flei q c tava irtdo. Flei q c eh irado.
- Chega dessa conversa fiada.
- Kd teu humor?
- Não tenho.
- Qro c aki cmg.
- Isso não é chinês. É grego. Ou bula de penicilina. Acho que te falta superego ou uma terapia ocupacional.
- Naum saquei. Axo c tb enrldo.
- Qual é a profissão do teu pai?
- Advgdo.
- :-)
- C vai rapdo, kra!!! Irado!!!!!!
- Teu pai não te corrige quando tu usas esse internetês?
- Naum tem como. Ele usa data vênia em @.
- Ah.
- Ele eh mto 100 noção. Axo esse trampo do vlho doidao.
- O velho é doidão?
- O trampo dele.
- Hummm...
- Adoro qd tu eh clro assim.
- Vai procurar a tua turma, fedelha.
- Pior eh o meu avô.
- Ah, bom! O que ele faz?
- Eh desembargador. Que trampo irado! Muito irado!!!!!!
- Tu és filha de advogado, neta de desembargador e pede trampo pra mim. Por que não trampa no Judiciário?
- Kra, agora naum dá +. Depois da súmula vinculante 13, o bixo pgou. Naum tem + mole.

Qro um trampo no CP, Ju.

OS PERIGOS DO AMOR VIRTUAL

Marcial Salaverry

Com certeza o Amor Virtual pode ser tão ou mais real do que o amor real, propriamente dito, e para melhor entender, vamos falar um pouco mais sobre relacionamentos internetais, ou mais especificamente sobre a questão que envolve o ponto crucial da coisa, ou seja salas de bate-papo, chats, icq´s e que tais, e que se constitui no ponto de maior atração existente na Internet. Nunca se conversou tanto neste mundo. Vara-se a madrugada nas salas de bate-papo. Por diversas razões, não sou grande apreciador, pois o besteirol é o que impera nesses bate-papo. Parece que muita gente apenas quer perturbar, ao invés de se relacionar, atrapalhando quando algumas pessoas querem conversar mais seriamente. É bem verdade que em algumas salas, existe a possibilidade de uma conversa reservada.

Enfim, não gostei.

Quero deixar claro que vou expressar apenas minha opinião pessoal. Não tenho absolutamente nada contra tais passatempos, mas sim contra o mau uso que muitas pessoas fazem deles, já que poderiam ser um excelente meio de comunicação e relacionamentos. Andei visitando alguns, fazendo uma espécie de pesquisa, somente para obter dados, tendo usado alguns nicks bem curiosos, me fazendo passar, ora por machão ansioso, ora por moço tímido, ora por uma garota assanhada, ora por uma coroa desejosa de conhecer novas emoções, ora por um coroa querendo ninfetas, e até por homossexual, e isso acabou deixando claro que não se pode mesmo confiar, pois nunca se pode saber com quem falamos.

Diverti-me muito com as situações criadas. Claro que manterei tudo no mais absoluto sigilo, pois foi uma espécie de pesquisa, com situações provocadas e não pretendo usar as conversas mantidas de maneira nenhuma. Não seria justo para com as pessoas envolvidas. Aliás, no fim das "entrevistas", sempre expliquei à pessoa a finalidade do assunto. Claro que muitas vezes minha mãe foi lembrada.. Peço desculpas à sua memória...

Todavia, pude constatar que existe um perigo muito grande nesse tipo de conversa e relacionamento, pois é muito fácil mexer com a imaginação das pessoas. Para quem tenha uma boa dose de criatividade, não é nada difícil obter vantagens através de situações dúbias.

Esta coisa traz muita mentira por trás. As pessoas se apresentam de maneira a criar uma falsa imagem de si e de sua situação real. A falta do contato físico facilita tudo. Claro é que não é só maldade que existe. A maioria dos frequentadores são realmente pessoas bem intencionadas e que querem mais é afugentar sua solidão, fazendo amizades e até mesmo romance. Afinal o desejo maior de qualquer pessoa é encontrar sua outra metade perdida em algum lugar. E por que não na Internet? Não fossem as pessoas mal intencionadas, e eu bateria as maiores palmas para o sistema.

Sinceramente, não posso imaginar nada mais bacana do que você conseguir se comunicar com pessoas dos mais diversos lugares, conseguindo despertar uma amizade sincera e leal, sem subterfúgios, sem segundas intenções, apenas com a intenção de trocar idéias, trocar conhecimentos e manter uma papo amistoso, e é importante que se use da mais absoluta sinceridade. Além do conhecimento superficial originado por conversas amenas e simpáticas, por vezes temos oportunidade de ajudar algumas dessas amizades, trocando opiniões sobre diversos assuntos, e às vezes até mesmo sobre problemas pessoais, pois, para quem está de fora, chega a ser mais fácil encontrar alguma solução, servindo muitas vezes de ajuda. O importante, sempre, são as boas intenções. E apesar dos pesares, podem acreditar que ainda existe muita gente bem intencionada neste mundo.

O objetivo não é crucificar ninguém, nem tampouco criticar os chats em geral. Somente desejo alertar para alguns dos perigos que existem por trás desses serviços, e que podem causar muitos problemas para pessoas desavisadas. Deve-se confiar desconfiando. Poderia haver por parte de todos uma seriedade maior. Afinal de contas, a tecnologia evoluiu tanto, criando este meio de comunicação tão prático e eficiente. Por que usá-lo de maneira irracional? Não deixa, realmente, de ser uma irracionalidade o uso incorreto que muita gente faz da Internet.

Infelizmente o cérebro humano é especialista em planejar tramas maquiavélicas. Usasse toda sua inteligência para o lado bom... e o mundo seria bem melhor.

Enfim... são coisas da vida, dentre as quais, está no gostoso que é termos UM LINDO DIA.

Fonte: http://www.planetaliteratura.com/index.php?view=detalhesartigo&codigo=74312

Geração Internet

Taís Luso de Carvalho


Fico a olhar a geração dos meus filhos, dou uma espiada na geração dos meus pais, mas fico na minha. Embora em esferas diferentes, os traumas, medos e incertezas continuam. De tudo um pouco: algumas coisas mudaram pra melhor e outras pra pior.

As pessoas não mudaram: a quantidade das atrocidades, sim. Fui uma criança que pude brincar na rua, subir em árvores, brincar com bonecas, brincar de armazém... Brincar. Fui criança. E que bom que tive infância.


Hoje, já adulta, vejo que as coisas continuam as mesmas: crimes? A diferença é que hoje somos ‘bem informados’: sabemos quem são, onde estão, o que roubam e pra onde levam; ninguém engana mais ninguém. É uma nova etapa: tudo está na Internet, esmiuçado, repetido milhões de vezes e com muitos internautas interagindo. Em minutos sabemos de tudo.


Guerras? O mundo está globalizado e sabemos a hora do primeiro míssil disparado. E ainda podemos ver a destruição que causou. Parece mentira, mas eu nunca imaginei que, sentada num sofá e tomando um cafezinho, assistiria pela televisão a morte de milhares de pessoas, cidades destruídas, ditador sendo enforcado, e seu último suspiro filmado. E tudo rodado um milhão de vezes na Internet.


Quando iríamos ver a hora ‘agá’ do terror nas ‘torres gêmeas’ e receber o passo a passo de tal tragédia?


Nunca imaginei que veria crianças de 12 anos assaltando, ‘ficando’ e se drogando. Nunca imaginei que veria tanta coisa! Acho que ainda não me acostumei a viver por aqui...

Da mesma forma não me acostumo a ver velhinhos doentes apanhando de adultos que são pagos para cuidá-los; não me acostumo a ver gente sendo torturada; não me acostumo a ver crianças ou fetos jogados em latas de lixo; não me acostumo a ver animais sendo maltratados; não me acostumo à maldade humana. E também fiz força para entender, mas não consigo me acostumar com as crianças dessa geração. Elas brincam? Ahãaa! E como.


Um baita computador, com mil jogos atiçando mais violência ou sexo explícito pra ficarem olhando e aprendendo, rapidinho, que sexo é uma coisa e que amor não conta muito. A bagunça é grande. Está todo mundo com muita pressa: pressa em fazer e desfazer. Sei lá...


O fotolog e orkut vieram para facilitar a exposição na tal ‘comunidade’, onde todos ficam sabendo da vida de todos. É interatividade demais.


Lembro da máquina mecânica; depois ficamos todos deslumbrados quando chegou a máquina elétrica; e por fim, caímos de costas com a chegada da máquina eletrônica, o maior barato! Nem imaginávamos que teríamos um figurão desses - computador -, onde baixamos programas que fazem tudo, falamos com pessoas do outro lado do mundo, on-line, e ficamos com a certeza de que nada mais é impossível para o homem. Talvez arrumar o que está desordenado: sentimentos.

A gente só vai ter de se acostumar com uma linguagem que anda pela Internet quase indecifrável e horrorosa, com muitas abreviações estranhas. Mas pior do que isso foi um concurso literário de contos na categoria ‘linguagem da Internet’.

E ainda estão pensando em fazer uma reforma na nossa língua... Não precisa, a reforma tá indo de vento em popa!